16 de set de 2016

Pastor some após aplicar golpe em fieis de igreja pentecostal em Lajeado



Adair Padilha teria aplicado golpes e se evadido com mais de R$ 200 mil em empréstimos e serviços não pagos. A Polícia Civil investiga o caso e aguarda, para os próximos dias, a presença de mais vítimas na delegacia

A Polícia Civil (PC) investiga uma série de denúncias contra o pastor, Adair Padilha, um dos responsáveis pela Igreja Pentecostal da Chamada Missionária Mistério da Revelação. O homem de 38 anos é suspeito de aplicar uma série de golpes contra fiéis de municípios dos vales do Taquari e Rio Pardo, e já teria angariado mais de R$ 200 mil de pelo menos 20 pessoas antes de fugir.

Os golpes eram aplicados de diversas formas, conforme os depoimentos recolhidos pelos investigadores da PC. Desde aluguel de prédios, contratações de serviços, obras, empréstimos em nome dos fiéis e uso de cartões de créditos de terceiros.

Padilha, que segundo a polícia era pintor de origem, também costumava ministrar os cultos em Vale Verde e Passo do Sobrado. Em Lajeado, pelo menos 80 pessoas frequentavam os cultos. Lá, ele conduzia as cerimônias faz pelo menos um ano.

Segundo as ocorrência já registradas na delegacia de Lajeado – a polícia aguarda mais vítimas nos próximos dias –, uma delas chegou a entregar, de uma só vez, R$ 21,5 mil ao suposto religioso. Após arrecadar uma quantia estimada em R$ 200 mil, Padilha sumiu faz pouco mais de uma semana sem prestar qualquer explicação aos fiéis.



Reflexo na fé

Para o coordenador do Conselho de Igrejas Cristãs de Lajeado (Cicla), pastor Rudi Tünnermann, casos como esse impactam na atuação da categoria e na credibilidade dos religiosos. “Evidente que, quando ocorre algo assim, as pessoas acabam endurecendo seus corações e, assim como na política, colocam todos no mesmo patamar.”

De acordo com ele, o ato reflete um momento em que as tentativas de tirar vantagem sobre a fé têm crescido no mundo. O caso gerou surpresa no coordenador, tanto pelos valores envolvidos no golpe quanto pelo pouco tempo de atuação da igreja no município.

O conselho foi criado como uma forma de facilitar atuações conjuntas e prestação de serviço comunitário. Nas primeiras reuniões, ainda informais, reuniam representantes de cerca de 20 igrejas cristãs. Hoje, o número não passa de dez.

Tünnermann atribui o caso à ingenuidade. Também cita a falta de criação de grupos com fiéis e representantes da igreja para gerir projetos ou campanhas de arrecadação financeira. Além da medida, afirma, a cautela é a melhor prevenção. “Muitas pequenas igrejas têm surgido com intuito de mercantilizar a fé das pessoas. Os recursos não devem ficar concentrados na mão só de uma pessoa.”

“Não confio mais nesses pastores”
Iracema dos Santos tem 70 anos e mora em Santa Cruz do Sul. É aposentada e recebe dois salários mínimos por mês. Reclama o reembolso de pelo menos R$ 15 mil por parte do falso pastor. “Ele gastou R$ 3 mil com meu cartão do Hipercard, R$ 900 com meu cartão do Quero-Quero e pegou empréstimo de R$ 12 mil em meu nome em uma financiadora de Lajeado”, relembra.

A aposentada frequentava fazia sete meses os cultos ministrados por Padilha em Vale Verde. Com o tempo, a confiança no pastor aumentava. Logo, ele começou a frequentar a residência dela. “Ele ia lá em casa para conversar com nossa família. Confiávamos muito nele. Imagina não confiar em um pastor?”

Os pedidos de empréstimos eram prontamente atendidos. O primeiro deles tinha como justificativa a compra de cadeiras para um novo templo a ser construído em Vale Verde, segundo promessa de Padilha. Hoje, a aposentada não sabe precisar se tal igreja foi, de fato, construída.

Após sofrer o golpe do religioso, Iracema garante que tomará mais cuidado com pedidos e solicitações de pastores. “Quando que eu imaginaria algo assim de um pastor? Mas agora aprendi. Nunca mais vou dar dinheiro. Não confio mais nesses pastores”, resume. Nessa quarta-feira, ela também esteve na delegacia de Lajeado registrando ocorrência. “Me caiu os braços quando vi que não era a única.”



“No fim, ele me logrou”

O empresário Ademir Beckmann, de Lajeado, acumula um prejuízo de R$ 1,5 mil. Ele prestava serviço de edição de vídeos para o pastor faz mais de um ano. “Ele me pagava em cheque, que pegava dos fiéis. Eu recebi dois. Um ele quitou e o outro de R$ 1.150,00 ainda está devendo.”

Beckmann cita que era comum o pastor frequentar a empresa de filmagens dele e contratar os serviços. “Ele sempre fazia a prazo e pagava. Agora, no fim, ele me logrou”, reclama. Assim como as demais vítimas, o lajeadense também denunciou o pastor à polícia.



“A lógica de arrecadação de recursos de muitas das igrejas pentecostais favorece esse tipo de oportunismo”

Doutor em Sociologia pela UFRGS, Cesar Goes é professor da Unisc e atua com pesquisas nas áreas de educação, economia solidária, cooperativismo e associativismo, movimentos sociais, cultura e religião.

 – Como você avalia o golpe aplicado pelo pastor diante da lógica das igrejas pentecostais?

Cesar Goes – Nesse caso específico, avalio como uma infelicidade. Não está vinculado à religião e ao pentecostalismo, portanto, é uma questão de Justiça comum. Se o sujeito enganou as comunidades que montou, tem que responder por isso. Infelizmente, a lógica de arrecadação de recursos de muitas das igrejas pentecostais favorece esse tipo de oportunismo.

– Como funciona a teologia da prosperidade, na qual essas igrejas se fundamentam?

Goes – O princípio que movimenta essa teologia é a ideia do dízimo. É uma tradição baseada numa interpretação bíblica sobre o que era a contribuição para as comunidades primitivas. Isso é retomado de maneira mais ao pé da letra na reforma protestante. O advento do pentecostalismo, a partir do século 19, dá uma ênfase ainda maior para essa contribuição financeira para a igreja e sua comunidade. Nos anos 1980, surge uma nova interpretação, também vinculada à ampliação do liberalismo econômico mais agressivo, isso se torna central para o crescimento das igrejas. Nesse sentido, a Universal se torna a grande promotora desses novos modelos no mundo todo.

– Qual a lógica das contribuições sob o ponto de vista dos fiéis?

Goes – O pertencimento ao grupo se dá pela contribuição, e dá ao indivíduo possibilidades de ganhos materiais e espirituais. De maneira geral isso funciona, não porque o indivíduo dá e recebe, mas porque garante maior pertencimento a uma comunidade com muitos laços internos de promoção e solidariedade. Esses laços também resultam em mudanças na vida dessa pessoa. Se tem problemas com alcoolismo, ele deixa de beber porque está em uma comunidade que não só condena esse comportamento como oferece oportunidades, quase clínicas, para sair do problema. A teoria da prosperidade envolve um conjunto de valores.

– E quando essa contribuição se torna um problema?

Goes – Importante é saber o grau de exigência e relativização que a igreja faz diante desse conjunto. Grandes proselitistas, como Silas Malafaia, chegam a sugerir um desvínculo entre a contribuição e a própria possibilidade de sobrevivência dos indivíduos. Isso em uma perspectiva de adesão fundamentalista, de um vínculo incondicional. Prejudicam o próprio orçamento familiar. Igrejas de grande sucesso tomam cuidado com essa forma de contribuição, mas o grau de arrecadação é grande e a teologia da prosperidade justifica essa arrecadação.

– Essa forma de trabalhar a religião permite oportunismos?

Goes – A teologia da prosperidade não é a culpada do oportunismo que pode se instalar no pentecostalismo, como no caso desse pastor que fugiu. Não podemos dizer que toda promoção de contribuição de dízimo estimula esse tipo de comportamento. Mas o crescimento intenso dessas grandes igrejas se justifica pelas arrecadações. De que outra forma uma Igreja Universal construiria o Templo do Salomão, senão por meio de um processo intenso de convencimento de doações. Com o aumento da capacidade de arrecadação, também cresce a influência política. Prova disso é o tamanho da bancada evangélica no Congresso Nacional.

– O caso desse pastor serve de alerta para a população?

Goes – Se isso chama atenção de toda a comunidade, deve servir muito mais de alerta para as próprias instituições que advogam a teologia da prosperidade. Cada vez que ocorre uma situação dessas, elas ficam mais fragilizadas. A lógica de contribuição e do dízimo deve ser muito bem cuidadas para não cair em descrédito, e ações como essa vão minando esse processo. É preciso ver se outra rede religiosa ampara essas famílias que provavelmente ficarão em dificuldade financeira.



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